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"Perceber no escuro do presente essa luz que procura nos alcançar, mas não pode fazê-lo, isso significa ser contemporâneo. Por isso os contemporâneos são raros. E por isso ser contemporâneo é antes de tudo, uma questão de coragem: porque significa ser capaz não apenas de manter fixo o olhar no escuro da época, mas também de perceber nesse escuro uma luz que, dirigida para nós, distancia-se infinitamente de nós. Ou ainda: ser pontual num compromisso ao qual se pode apenas faltar." 
Giorgio Agamben

Neste emblemático 2020, ocasião na qual o Contemporâneo comemora 23 anos de existência, e depois do lançamento, em setembro passado, do primeiro curso de especialização integralmente remoto (on-line) da instituição, reunindo alunos de diversas regiões do país, o Contemporâneo passa a oferecer a partir de 2021 sua Formação Psicanalítica. Em mais de duas décadas de trabalho na transmissão da psicanálise, buscamos identificar o que há de mais consistente em nossa disciplina e na contemporaneidade; sem distanciamento dos teóricos fundamentais e referenciais, propomos um programa de formação que é fruto de um compromisso ético, de uma abertura para o novo e de uma interrogação permanente da psicanálise e do fazer psicanalítico. O projeto que se inicia em março é único e oferece um diferencial em Formação Psicanalítica, disponibilizando ainda um novo espaço para os alunos que já possuem um percurso de pós-graduação no Contemporâneo.

A formação psicanalítica que estará sendo oferecida pelo Instituto Contemporâneo à comunidade psi, a partir de 2021, distingue-se dos programas de formação atualmente disponíveis em nosso país pela particularidade do projeto de estudo a ser desenvolvido nos quatro anos de seminários teóricos e supervisões. A perspectiva teórica-clínica que o norteia integra autores efetivamente "contemporâneos", os quais se alinham na vertente freudiano-ferencziana, fonte das mais promissoras e principais contribuições ao pensar psicanalítico nas últimas décadas do século XX. Aí se inserem três autores (e obras) que consideramos os mais legitimamente "herdeiros" - no sentido atribuído à palavra por Derrida - de Freud e Ferenczi e que constituem as bases do que hoje conhecemos como psicanálise do self, aí incluídos Donald Winnicott, Heinz Kohut e Michel Balint, e da psicanálise intersubjetiva, conforme a expressão cunhada por Jacques Lacan e endossada pelos autores franceses influenciados por seu ensino em maior ou menor medida, como Piera Aulagnier, J.-B. Pontalis, Octave e Maud Mannoni e outros. Enriquecem esta nominata os autores que desenvolvem uma perspectiva vincular na psicanálise, a qual encontra sua maior expressão nas contribuições de René Kaës, e nas obras dos argentinos Isidoro Berenstein e Janine Puget. O analista em formação terá também a oportunidade de frequentar os seminários transdisciplinares, que concedem maior atenção às zonas de entrelaçamento da psicanálise com a filosofia, as artes, a literatura e a teoria literária, sendo a fertilização cruzada dos diferentes territórios de saber imprescindível para evitar a asfixia e a autofagia que ameaçam sempre qualquer discurso encerrado em si mesmo.

Ângela Piva, psicanalista;
Cesar Bastos, psiquiatra e psicanalista;
Roberto Graña, psicanalista.